segunda-feira, 6 de setembro de 2010

uma epígrafe





“Estão aqui indicadas algumas das implicações directamente políticas do trabalho de Llansol. Por um lado, um questionamento de todo o poder sobre um texto, quer o do autor que o escreve, quer o do leitor que o lê, na medida em que ambos se deixam envolver e atravessar pela corrente anônima da textualidade (onde a própria distinção ler/escrever se vai diluindo). Isto significa que a textualidade se propõe como comunidade de iguais, isto é, como a radicalidade de um projecto democrático. Mas com duas reservas em relação às espectativas tradicionais: em primeiro lugar, esta igualdade não é um dado, mas uma conquista; em segundo lugar, esta igualdade só é possível não no espaço do confronto e concorrência em que decorre o drama da História.
Numa época sem utopias, o texto de Llansol é certamente um dos mais ferozmente utópicos que nos sentimos capazes de inventar. É esta radicalidade e esta ferocidade que o tornam de certo modo inadequado em relação às rotinas de leitura que um prêmio como este tende a suscitar. Mas não podemos deixar de exprimir o júbilo que nos chega de pensarmos que, por um mecanismo talvez desajeitado, poderá haver cem, dez, dois, ou mesmo um só leitor a mais a entrar nessa comunidade de textos em que regularmente nos perdemos e reencontramos com Maria Gabriela Llansol.
É verdade que estes textos me fascinam, mesmo quando não estou certo de os entender perfeitamente (melhor: sobretudo quando não estou certo). É verdade (creio) que estes textos fascinam tanto Maria Gabriela Llansol como a mim próprio. E o facto de neles se desarmar toda a autoridade de um autor que os torna simultaneamente precários, vulneráveis e deslumbrantes. Qualquer leitor pode bater à porta e entrar. O que o aguarda é apenas a serenidade e a justeza das coisas evidentes: pão, água, o convívio com as plantas e os animais, alguma luz mesmo de noite, alguma noite no corpo da própria luz. E o amor como partilha do mais difícil.”


Eduardo Prado Coelho, “Um prémio dado mais tarde”.