Diria que sim, conheço,
o que me parte em dois,
as faces da chuva,
os olhos da água,
traiçoeiramente.
Diria que sim,
e riria deste dia,
de errar a hora,
(...)
Diria que tudo é pó,
poesia de longe,
dessas que se esquece,
livro raro, antigo,
no banco do táxi.
E diria que sim,
que iria com você,
sem saber da volta,
sem amor, revolta,
sem passagem.
Simples como se nota
na ponta do lápis
uma ínfima parte
do branco da folha.
Kátia Borges, "Port Arthur, Texas 3".
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
down by the river
she could drag me
over the rainbow,
send me away
http://www.youtube.com/watch?v=cOxbGEXM89g
over the rainbow,
send me away
http://www.youtube.com/watch?v=cOxbGEXM89g
Horas e horas conversamos inconscientemente em português
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes de depois da fé eu pergunto cadê os meus que se foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de molho na panela.
Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os tivesse inventado.
(...)
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.
Adélia Prado, "Desenredo".
como se fora esta a única língua do mundo.
Antes de depois da fé eu pergunto cadê os meus que se foram,
porque sou humana, com capricho tampo o restinho de molho na panela.
Saberemos viver uma vida melhor que esta,
quando mesmo chorando é tão bom estarmos juntos?
Sofrer não é em língua nenhuma.
Sofri e sofro em Minas Gerais e na beira do oceano.
Estarreço de estar viva. Ó luar do sertão,
ó matas que não preciso ver pra me perder,
ó cidades grandes, estados do Brasil que amo como se os tivesse inventado.
(...)
Tudo junto é inteligível demais e eu não suporto.
Valha-me noite que me cobre de sono.
O pensamento da morte não se acostuma comigo.
Estremecerei de susto até dormir.
E no entanto é tudo tão pequeno.
Para o desejo do meu coração
o mar é uma gota.
Adélia Prado, "Desenredo".
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Mariana III
sabes quando chega a hora de sair
e uma imagem nua do que somos
acompanha mesmo o peso das extremidades?
São quatro mãos perfumadas por temperos
e dois vértices para onde desistimos
e podemos apenas nos diluir.
domingo, 1 de julho de 2012
Poema dedicado a Maria Luíza
Eu te quero a ti e somente,
Eu que compreendia a beleza das prostitutas e dos portos,
Que sofri a violência da solidão no meio das multidões das grandes ruas,
Que vi paisagens do céu erguidas sobre a noite do mais alto e puro mar,
Que errei por muito tempo nos jardins deliciosos dos amores incertos e obscuros.
Eu te quero a ti sempre e somente.
Eu te quero a ti pura e tranqüila
Preciosa entre todas as mulheres
Que como rosas, como lírios, sobre mim se debruçaram,
Entre aquelas que de mim se aperceberam
Ao doce esmaecer das tardes luminosas.
Eu te quero a ti pura e tranqüila.
Nos espelhos da memória refletida
Pelas horas do meu tempo transpareces
E o Sol do meu deserto te ilumina
E a noite do meu sono te adormece.
Eu te pressinto no silêncio das verdades que ignoro,
No silêncio e no delírio dos desejos impossíveis:
através de um céu sem nuvens, do céu que é um prisma azul
Eu te revelarei a cor da tempestade
E a refração serena do meu mais íntimo segredo...
Em horizontes de ouro e de basalto
Indicarei o teu caminho
Entre flores de luar...
Farei uma lenda sobre teus cabelos...
Soneto Somente
Nasci na várzea do Capibaribe
De terra escura, de macio turvo,
De luz dourada no horizonte curvo
E onde a água doce, o massapê proíbe.
Sua presença para mim se exibe
No seu ar sereno que inda hoje absorvo,
E nas noites, com negridão de corvo.
Antes que ao porto do seu céu arribe
A lua. Assim só tenho essa planície...
Pois tudo quanto fiz foi superfície
De inúteis coisas vãs, humanamente.
De glórias e de alturas e universos
Não tenho o que dizer nestes meus versos:
– Nessa várzea nasci, nasci somente.
Joaquim Cardozo
quinta-feira, 28 de junho de 2012
BR 101
Eu acho que foi em algum conto da Márcia Denser que uma vez eu li: "eu sou uma mulher entremeada". Eu não vou fuçar a fonte agora porque meus livros - faz uns 4 meses - estão encaixotados na desordem do meu tempo. Os textos, nesse sentido, estão como a minha vida, na divisão de uma reta traçada entre o Rio e a Bahia. Quando estou no Rio, como agora, sinto já saudade da minha casa a nascer: da louça do dia-a-dia, da visão do céu na outra cidade e dos rostos que começo a saber como os escolhidos e os preferidos de se ver. Quanto estou na Bahia, meu amor é via skype porque é distante tudo e pareço sentir apenas uma grande falta: acho que são os olhos da afeição e do lugar seguro querendo porto, ou mar. A minha subjetividade sagitariana sabe que, afinal, não há lugar certo e que a aposta na Bahia é de força, mas eu seria leviana se negligenciasse também o meu desejo de conforto e de congregação. Semana que vem eu volto pra Amargosa e vou reunir as meninas todas pra uma feijoada ou pra um almoço. Porque quero repartir com elas essa minha divisão entremeada. Quero convidá-las para a cozinha que é o mote para a quentura dos afetos. Quero reunir à mesa e que a mesa esteja rodeada de gente forte e líquida. Porque Amargosa - isso me apascenta o coração - é uma cidade feminina.
domingo, 13 de maio de 2012
os dias sob os quintais
em minha casa há dois quartos vazios
que disputam a melhor coloração para
os lagartos da tarde no que resta do jardim.
o feijão no fogo, a sua quantidade e eu
somos um volume silencioso que se alinha
ao motor de uma bomba de água, ao movimento das aves
sobre o vento e o caminho interno de duas ou três vozes
que sempre estiveram no interstício dos quartos ou
à sala entre os ladrilhos por onde caem fios escuros de mim
comigo.
que disputam a melhor coloração para
os lagartos da tarde no que resta do jardim.
o feijão no fogo, a sua quantidade e eu
somos um volume silencioso que se alinha
ao motor de uma bomba de água, ao movimento das aves
sobre o vento e o caminho interno de duas ou três vozes
que sempre estiveram no interstício dos quartos ou
à sala entre os ladrilhos por onde caem fios escuros de mim
comigo.
sexta-feira, 11 de maio de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
Antífona (outra bittersweet symphony)

à ti ofereço novas
sou oficialmente atravessada
pelas instâncias das curvas
outra e mesma dos dias que
bordo em saia branca
estou aqui para ti em carne
aguardando a filiação perdida
na terra em que jazem todos os
buritis
como assinar o meu nome nesse
dia de vésperas? como
provar a espera e derramar a sua
monstruosidade sem molhar as rodovias?
aceno para frente e recebo a páscoa
em atabaques. são novas.
a luz (daqui) me cega de sentir.
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