sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Flume

Bon Iver


I am my mother's only one
It's enough
I wear my garment so it shows
Now you know

Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon

I am my mother on the wall
With us all
I move in water, shore to shore
Nothing's more

Only love is all maroon
Lapping lakes like leery loons
Leaving rope burns, reddish ruse

Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon

Pode ser ouvida aqui: http://www.youtube.com/watch?v=62i9Sodwp5o

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Divórcio


Monica Costa Netto


Demora na serpente do adeus
uma saudade constrita do que não foi
céu
coberto por folhas
o rastejante recordar se agita
com sua fome comprida
varrendo o chão da alma
esquece
o sopro desconhecido
entre as palmeiras de dendê
não grita como as jandaias
morre calado nos coquinhos
no parque sem cobras
a corda enroscada no pescoço do dia
dificulta o trabalho do carrasco
com o machado
castigo
o corpo-árvore se desloca acéfalo
corre
esperando descobrir
no vento que lhe corta a face
o espírito do encontro
sem lugar
passa
promessa errante
dos tempos em que partem
viajantes anfíbios
os peixes-pássaros da existência
para colonizar sonhos futuros
do que nunca seremos
sim

terça-feira, 4 de junho de 2013




as réstias




nada tem sido o que me dá o dia.
só o nascimento curto das helicônias
é chamado certo para os pássaros.






a habitação de cimento transborda
um cenário esvaziado de aceites e
a economia dos azulejos garante a
construção de um poço dentro da casa.
(a casa é sempre palavra que sobra)





as laranjas silenciam os gomos abertos:
não há insetos que resistam aos odores
do que principia, lento, a se apagar.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Long silence presents the tragedies
of love.

REM. Sad Professor.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A Du Fu, da aldeia de Shaqiu



Enfim, por que
estou aqui?
Vivo retirado
na aldeia de Shaqiu.
Ao pé das muralhas,
apenas árvores seculares.
Nelas, dia e noite,
a voz do outono.
O vinho de Lu
não chega
a me deixar bêbado
e os cantos comoventes de Qi
não tocam mais
meu coração.
Minhas saudades
são como as correntes
do rio Wen,
apressadas, sem descanso,
rumo ao sul.

Li Bai

sábado, 20 de abril de 2013

A noite não adormece nos olhos das mulheres

Conceição Evaristo

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

sábado, 13 de abril de 2013

a passagem


eu saberia contornar o teu rosto
com as pontas imprecisas dos meus
dedos sem que para isto muitos
segundos passassem porque sei de
cor o perímetro exato que perco
pouco a pouco do teu vulto todos
os dias na tarefa de amar inteiro
o que não pode ser mais.

quarta-feira, 20 de março de 2013

a retirada

num banco de ripas ásperas
do pátio sul que acessa o campus
com o rosto surrado de lágrimas
aguardo a hora próxima da aula
certo de que não há outra coisa
a que aguardar.


sebastião edson macedo

domingo, 17 de março de 2013

mia cruda sorte

http://www.youtube.com/watch?v=vm6r3B-D3qk

sábado, 16 de março de 2013

Meditação do dia 12/5/85

Encontrei-me diante desse silêncio inarticulado um pouco
como a madeira alguns em momentos semelhantes
pensaram decifrar o espírito em alguma remanência para
eles isso foi uma consolação ou redobro do horror não para mim.

Havia sangue espesso sob tua pele em tua mão
derramado na ponta dos dedos para mim não era humano.


Essa imagem se apresenta pela milésima vez novamente
com a mesma violência ela não pode não se repetir
indefinidamente uma nova geração de minhas células se
houver tempo encontrará essa duplicação onerosa essas
tiragens fotográficas internas não tenho escolha agora.


Nada no preto me influencia.

Não me exercito a nenhuma comparação não avanço
nenhuma hipótese afundo-me pelas unhas.


Sou em tempos míope não podem dizer-me
olha esse gramado lá dez anos antes vá em sua direção.


O olhar humano tem o poder de dar valor aos seres isso
os torna mais caros.


Jacques Roubaud. Algo: preto.