quarta-feira, 18 de setembro de 2013
a máquina de fazer a dor
a tarde pareceu normal a caminho do vale, na ciência
de que um portal, às vezes, destrói-se com um guindaste,
não sei. já me são familiares os relevos, a língua
passando pelo dente arrancado, as bromélias que
se penduram do alto. natural que eu ouça demais
as coisas que o corpo fala. não poderia te dizer
o que é. mas não é nada de diferente. só o piso branco
a casa no cio dos gatos e o cais inteiro da minha
infância em cinco ou seis fotos para as quais olho
entre um intervalo e outro da televisão dispersa e muda.
sábado, 14 de setembro de 2013
Canto dos insetos
http://www.youtube.com/watch?v=PmJ66y0mrzk
Wado (de "Vazio Tropical")
Bebe o café, muda de nome.
Deixa a casa e chora
Está no leite que ferve
Está no mel do seu nome
Deixa a casa e chora
Você já ouviu um inseto cantar?
Ouviu estórias de amor
De ninar?
Eu acho que vem, não vem
Vou deixar você viver em paz
Sozinha
Mas quem sabe onde cabe
O amor onde faz
Você já ouviu um inseto cantar
Ouviu estórias de amor
De ninar outra vez
É sua a sua demora
Não quero você nem ninguem
Se não for agora
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
Se você vier
Vamos recomeçar por onde?
Deixa estar como esta
Este é o nosso lugar
Mesmo quando não há um onde
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
Se você vier
Vamos recomeçar por onde?
Deixa estar como esta
Este é o nosso lugar
Mesmo quando não há um onde
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
Wado (de "Vazio Tropical")
Bebe o café, muda de nome.
Deixa a casa e chora
Está no leite que ferve
Está no mel do seu nome
Deixa a casa e chora
Você já ouviu um inseto cantar?
Ouviu estórias de amor
De ninar?
Eu acho que vem, não vem
Vou deixar você viver em paz
Sozinha
Mas quem sabe onde cabe
O amor onde faz
Você já ouviu um inseto cantar
Ouviu estórias de amor
De ninar outra vez
É sua a sua demora
Não quero você nem ninguem
Se não for agora
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
Se você vier
Vamos recomeçar por onde?
Deixa estar como esta
Este é o nosso lugar
Mesmo quando não há um onde
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
Se você vier
Vamos recomeçar por onde?
Deixa estar como esta
Este é o nosso lugar
Mesmo quando não há um onde
Deixa o mar varrer
Deixa cictrizar meu nome
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
Flume
Bon Iver
I am my mother's only one
It's enough
I wear my garment so it shows
Now you know
Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon
I am my mother on the wall
With us all
I move in water, shore to shore
Nothing's more
Only love is all maroon
Lapping lakes like leery loons
Leaving rope burns, reddish ruse
Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon
Pode ser ouvida aqui: http://www.youtube.com/watch?v=62i9Sodwp5o
Bon Iver
I am my mother's only one
It's enough
I wear my garment so it shows
Now you know
Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon
I am my mother on the wall
With us all
I move in water, shore to shore
Nothing's more
Only love is all maroon
Lapping lakes like leery loons
Leaving rope burns, reddish ruse
Only love is all maroon
Gluey feathers on a flume
Sky is womb and she's the moon
Pode ser ouvida aqui: http://www.youtube.com/watch?v=62i9Sodwp5o
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Divórcio
Monica Costa Netto
Demora na serpente do adeus
uma saudade constrita do que não foi
céu
coberto por folhas
o rastejante recordar se agita
com sua fome comprida
varrendo o chão da alma
esquece
o sopro desconhecido
entre as palmeiras de dendê
não grita como as jandaias
morre calado nos coquinhos
no parque sem cobras
a corda enroscada no pescoço do dia
dificulta o trabalho do carrasco
com o machado
castigo
o corpo-árvore se desloca acéfalo
corre
esperando descobrir
no vento que lhe corta a face
o espírito do encontro
sem lugar
passa
promessa errante
dos tempos em que partem
viajantes anfíbios
os peixes-pássaros da existência
para colonizar sonhos futuros
do que nunca seremos
sim
Monica Costa Netto
Demora na serpente do adeus
uma saudade constrita do que não foi
céu
coberto por folhas
o rastejante recordar se agita
com sua fome comprida
varrendo o chão da alma
esquece
o sopro desconhecido
entre as palmeiras de dendê
não grita como as jandaias
morre calado nos coquinhos
no parque sem cobras
a corda enroscada no pescoço do dia
dificulta o trabalho do carrasco
com o machado
castigo
o corpo-árvore se desloca acéfalo
corre
esperando descobrir
no vento que lhe corta a face
o espírito do encontro
sem lugar
passa
promessa errante
dos tempos em que partem
viajantes anfíbios
os peixes-pássaros da existência
para colonizar sonhos futuros
do que nunca seremos
sim
terça-feira, 4 de junho de 2013
as réstias
nada tem sido o que me dá o dia.
só o nascimento curto das helicônias
é chamado certo para os pássaros.
a habitação de cimento transborda
um cenário esvaziado de aceites e
a economia dos azulejos garante a
construção de um poço dentro da casa.
(a casa é sempre palavra que sobra)
as laranjas silenciam os gomos abertos:
não há insetos que resistam aos odores
do que principia, lento, a se apagar.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A Du Fu, da aldeia de Shaqiu
Enfim, por que
estou aqui?
Vivo retirado
na aldeia de Shaqiu.
Ao pé das muralhas,
apenas árvores seculares.
Nelas, dia e noite,
a voz do outono.
O vinho de Lu
não chega
a me deixar bêbado
e os cantos comoventes de Qi
não tocam mais
meu coração.
Minhas saudades
são como as correntes
do rio Wen,
apressadas, sem descanso,
rumo ao sul.
Li Bai
Enfim, por que
estou aqui?
Vivo retirado
na aldeia de Shaqiu.
Ao pé das muralhas,
apenas árvores seculares.
Nelas, dia e noite,
a voz do outono.
O vinho de Lu
não chega
a me deixar bêbado
e os cantos comoventes de Qi
não tocam mais
meu coração.
Minhas saudades
são como as correntes
do rio Wen,
apressadas, sem descanso,
rumo ao sul.
Li Bai
sábado, 20 de abril de 2013
A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição Evaristo
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
Conceição Evaristo
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
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