terça-feira, 4 de junho de 2013
as réstias
nada tem sido o que me dá o dia.
só o nascimento curto das helicônias
é chamado certo para os pássaros.
a habitação de cimento transborda
um cenário esvaziado de aceites e
a economia dos azulejos garante a
construção de um poço dentro da casa.
(a casa é sempre palavra que sobra)
as laranjas silenciam os gomos abertos:
não há insetos que resistam aos odores
do que principia, lento, a se apagar.
quinta-feira, 2 de maio de 2013
A Du Fu, da aldeia de Shaqiu
Enfim, por que
estou aqui?
Vivo retirado
na aldeia de Shaqiu.
Ao pé das muralhas,
apenas árvores seculares.
Nelas, dia e noite,
a voz do outono.
O vinho de Lu
não chega
a me deixar bêbado
e os cantos comoventes de Qi
não tocam mais
meu coração.
Minhas saudades
são como as correntes
do rio Wen,
apressadas, sem descanso,
rumo ao sul.
Li Bai
Enfim, por que
estou aqui?
Vivo retirado
na aldeia de Shaqiu.
Ao pé das muralhas,
apenas árvores seculares.
Nelas, dia e noite,
a voz do outono.
O vinho de Lu
não chega
a me deixar bêbado
e os cantos comoventes de Qi
não tocam mais
meu coração.
Minhas saudades
são como as correntes
do rio Wen,
apressadas, sem descanso,
rumo ao sul.
Li Bai
sábado, 20 de abril de 2013
A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição Evaristo
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
Conceição Evaristo
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
do nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
sábado, 13 de abril de 2013
quarta-feira, 20 de março de 2013
domingo, 17 de março de 2013
sábado, 16 de março de 2013
Meditação do dia 12/5/85
Encontrei-me diante desse silêncio inarticulado um pouco
como a madeira alguns em momentos semelhantes
pensaram decifrar o espírito em alguma remanência para
eles isso foi uma consolação ou redobro do horror não para mim.
Havia sangue espesso sob tua pele em tua mão
derramado na ponta dos dedos para mim não era humano.
Essa imagem se apresenta pela milésima vez novamente
com a mesma violência ela não pode não se repetir
indefinidamente uma nova geração de minhas células se
houver tempo encontrará essa duplicação onerosa essas
tiragens fotográficas internas não tenho escolha agora.
Nada no preto me influencia.
Não me exercito a nenhuma comparação não avanço
nenhuma hipótese afundo-me pelas unhas.
Sou em tempos míope não podem dizer-me
olha esse gramado lá dez anos antes vá em sua direção.
O olhar humano tem o poder de dar valor aos seres isso
os torna mais caros.
Jacques Roubaud. Algo: preto.
como a madeira alguns em momentos semelhantes
pensaram decifrar o espírito em alguma remanência para
eles isso foi uma consolação ou redobro do horror não para mim.
Havia sangue espesso sob tua pele em tua mão
derramado na ponta dos dedos para mim não era humano.
Essa imagem se apresenta pela milésima vez novamente
com a mesma violência ela não pode não se repetir
indefinidamente uma nova geração de minhas células se
houver tempo encontrará essa duplicação onerosa essas
tiragens fotográficas internas não tenho escolha agora.
Nada no preto me influencia.
Não me exercito a nenhuma comparação não avanço
nenhuma hipótese afundo-me pelas unhas.
Sou em tempos míope não podem dizer-me
olha esse gramado lá dez anos antes vá em sua direção.
O olhar humano tem o poder de dar valor aos seres isso
os torna mais caros.
Jacques Roubaud. Algo: preto.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
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