domingo, 19 de dezembro de 2010
ilha adentro
a queda da paisagem não modifica
a mim e os meus degredos as minhas
costuras ou os acenos da tarde
encontra é essa engenharia a que
preenche as vigas com dinamite e
acende o longo morrer dos edifícios
estivemos assistindo muitas imagens
e delas sobressaem a rotura duma ilha
dela distante se avistava a terra
ou isto: não que se reconheça mais
a iluminação do dia conforme os
andares demonstravam as sombras
quedam os carros da ponte ao lado
no interstício da forja e não do aço
é a paisagem que cai do mundo vencida.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Publico abaixo a generosa resenha que a professora e pesquisadora, além de silenciosa amiga, Evelyn Blaut fez do meu primeiro livro de poemas:
Recensão a réplica das urtigas, de Tatiana Pequeno. Oficina Raquel, 2009.
réplica das urtigas chama a atenção desde o título, pois que réplica tem pelo menos três sentidos, é resposta incisiva àquilo que é dito ou escrito, contestação, replicação, objeção; cópia ou imitação de uma obra de arte; ritornelo – sinal que indica repetição de determinado trecho de uma peça, em cantos ou versos, como nos madrigais italianos dos séculos XIV e XV, repetição de um verso no fim ou no início (como antecanto) de diversas estrofes ou ainda no corpo da mesma estrofe, criando uma espécie de rima ou base rítmica para o poema (Houaiss). Urtiga pertence à família das urticáceas, ervas que causam irritação à pele. Isto quer dizer, quase segundo a lição de Gilles Deleuze, replicar aquilo que parece menor, mas que é ainda pungente, comovente, lancinante. Sei, no entanto, das Iluminações já lidas e relidas por Tatiana e, por isso, ler Réplica das urtigas naturalmente me faz voltar a “As Réplicas de Nina”, de Arthur Rimbaud. Numa relação quase quiasmática, por alguma razão misteriosa, o título do poema de Rimbaud está no plural, um poema que faz as vezes de um diálogo teatral cuja réplica de Nina é a contestação, o verso final: “E o meu emprego?”. No entanto, a dica da recolha de Tatiana está ainda no início do discurso d’Ele:
Ele. – Vamos, meu peito contra o teu,
Bem juntos, hã!?,
Gozar o ar puro, o azul do céu
Desta manhã
De fresco sol que banha o dia
De vinho? ... e, por
Todo o bosque, que se inebria
Mudo de amor,
Ver cada galho que desperta,
Claros botões,
Sentindo, em cada coisa aberta,
Carne em tensões:
E atirarás para as urtigas
Teu penhoar,
Rosando o ar azul que abrigas
Em teu olhar,
(...)
O título do livro de estréia em poesia de Tatiana Pequeno vem no singular como se replicasse tão somente as urtigas. E, no entanto, replica e cita toda uma constituição familiar: “teu corpo, pai/ exumado na data dos meus anos” (p. 32); “enquanto meu pai, pedra de toque,/ toma sol sem aura no seu corpo de lítio” (p. 53); “quando o pai subiu ao monte para de lá cair/ magma e monstro” (p. 59); “reconheci no aspecto homogêneo da arnica/ a benfeitoria dos apaches, meus irmãos.” (p. 34); “Dois dos meus filhos estão/ suspensos através de/ um buquê de escorpiões” (p. 38); “usar o véu de nossa/ senhora das dores e saber como foi para ela/ ter vindo de tão longe para viver um poeta morrendo/ nas mãos furadas de cerzir a família” (p. 49). Há pelo menos três aparições do pai e são presenças órfãs, ausentes enquanto “(as mães aqui estão de passagem)” (p. 59). Enquanto imagino um “corpo de lítio”, vem-me à mente o “Lithium” do Nirvana. É uma genealogia poética de renda cravejada de peças preciosas e de balas, ou melhor, “com cravas nas linhas/ e sangue de bala escorrendo no bordado” (p. 49). A estirpe familiar forma um ciclo completo de vida e morte que vai dos “folículos na base” (p. 49) a “a morte era de novo arrumar os armários” (p. 63); da “ogiva do meu filho” (p. 78) a “os meus avós rezando e sem fé” (p. 49). E é também uma linhagem de réplicas que vai progressivamente de Maria Gabriela Llansol a Ian Curtis, Al Berto a Chan Marshall. E Orides Fontela. As referências literárias, musicais, pessoais são aqui cerzidas por Tatiana.
Há neste ciclo de vida e morte um elemento elementar, a água, que também adquire um viés no negativo, quer dizer, a água não é límpida, condição para transporte, mas torna uma força destrutiva. “Allegro diabolico” é título do poema e referência a um allegro de Béla Bartók, é dedicado “para os amigos com muitas coisas em água”, coisas astrológicas, psicológicas, afetivas e afetadas. O poema cresce segundo a ética do fundo mar e seus peixes, ostras, polvos e arraias; é um mundo subaquático com “neurologia aquática”, “sebes afogadas” e “metrô hidroviário”, um mundo a postos de ser engolido por uma onda e vivermos todos numa nova era, numa “comunidade tão sadia”, segundo o ritmo e o movimento das águas. Mas é que o poema fala de uma clínica e de uma “moça ansiolítica” a “dançar/ ao som da divisão da alegria”, a dançar o allegro e pode ser que toda a comunidade sadia possa ser “vista através do aquário de prata”. Mas, como disse, a água torna uma força destrutiva: “a água destruiria a Casa” e vivemos mesmo todos numa nova era movida por águas moventes de “uma experiência contínua de mar/ e merda na cachoeira de lama” (p. 50-51).
Gosto de “lullaby 6000” (também título de uma faixa de The Czars). Há uma imagem cíclica, não só genealógica ou da relação entre vida e morte, que são relações inerentes, como o “feixe do teleférico”, um transporte que permite a travessia, a mudança da paisagem. Entretanto, conforme a imagem do teleférico, penso no transporte circular que Bruno S. toma no final de Stroszek (Werner Herzog, 1977), filme a que Ian Curtis assistiu e em seguida suicidou-se. Neste filme, como em Também os anões começaram pequenos (Herzog, 1970) há uma imagem emblemática que é a de um carro posto em movimento, sem motorista, a desenhar um círculo. Stroszek entra num teleférico e contorna uma imagem regressiva de andar à volta de si mesmo, num eterno e perverso retorno. O poema “lullaby 6000” provoca a intenção de ser um texto de violência, “Não é verdade que o que me dás/ seja suave”, de tensão sexual que passa pelo “corpo”, pela “extensão”, pelo “falo”, pelo “trabalho de/ escavação”. E, logo a seguir, uma pergunta, quase ao molde do poema de Rimbaud, quase uma revisitação de “As réplicas de Nina”: “Lançarias comigo o feixe do teleférico?”. Eu diria que esta é uma pergunta litoral, quer dizer, é um chamado, um convite para entrar na roda e é também um pedido vigoroso para formar um círculo de vício. É esta voz perversa que espera “que estejas preparando o retorno para ti” (p. 72). E pode ser a mesma voz de um outro poema, como “engano”: “Dormias/ e nos intervalos/ mal sabias/ o meu nome” (p. 79) que parece mesclar a presença do amante indiferente e da mulher capaz de fazer de tudo para “simplesmente” “te fazer/ ficar por mais horas até que o pavor/ me dissipasse a água e enfim fôssemos/ iguais na condição da chuva e o teu/ marco no meu tronco fosse algo/ que nunca mais pudesses levar ou tomar/ de volta.” (p. 70). Este poema de tensão sexual traça uma tensão poética. Por isso, Litoral. E aqui peço licença para citar “Os sentidos do acidental” de Jorge Fernandes da Silveira, que confessa no prefácio a Réplica das urtigas gostar tanto deste Poema: “Gosto sobretudo deste modo de estar à beira do corpo do outro como se estivesse (sic) num litoral, lugar há muito confortável para o literário saber-se entre o literal e o metafórico” (p. 19-20). E confesso que gosto desta imagem limite, desta imagem litoral do “olímpico gesto de tatear as tuas/ costas de navio ao erro do exílio” (p. 70) neste livro em que, tensamente, “morte e vida/ irmana” .
Evelyn Blaut Fernandes
Rio, 18 de novembro de 2010.
JORGE, Luiza Neto. Poesia. Poesia. Organização e prefácio de Fernando Cabral Martins. 2. ed. Lisboa: Assírio e Alvim, 2001, p. 234.
Recensão a réplica das urtigas, de Tatiana Pequeno. Oficina Raquel, 2009.
réplica das urtigas chama a atenção desde o título, pois que réplica tem pelo menos três sentidos, é resposta incisiva àquilo que é dito ou escrito, contestação, replicação, objeção; cópia ou imitação de uma obra de arte; ritornelo – sinal que indica repetição de determinado trecho de uma peça, em cantos ou versos, como nos madrigais italianos dos séculos XIV e XV, repetição de um verso no fim ou no início (como antecanto) de diversas estrofes ou ainda no corpo da mesma estrofe, criando uma espécie de rima ou base rítmica para o poema (Houaiss). Urtiga pertence à família das urticáceas, ervas que causam irritação à pele. Isto quer dizer, quase segundo a lição de Gilles Deleuze, replicar aquilo que parece menor, mas que é ainda pungente, comovente, lancinante. Sei, no entanto, das Iluminações já lidas e relidas por Tatiana e, por isso, ler Réplica das urtigas naturalmente me faz voltar a “As Réplicas de Nina”, de Arthur Rimbaud. Numa relação quase quiasmática, por alguma razão misteriosa, o título do poema de Rimbaud está no plural, um poema que faz as vezes de um diálogo teatral cuja réplica de Nina é a contestação, o verso final: “E o meu emprego?”. No entanto, a dica da recolha de Tatiana está ainda no início do discurso d’Ele:
Ele. – Vamos, meu peito contra o teu,
Bem juntos, hã!?,
Gozar o ar puro, o azul do céu
Desta manhã
De fresco sol que banha o dia
De vinho? ... e, por
Todo o bosque, que se inebria
Mudo de amor,
Ver cada galho que desperta,
Claros botões,
Sentindo, em cada coisa aberta,
Carne em tensões:
E atirarás para as urtigas
Teu penhoar,
Rosando o ar azul que abrigas
Em teu olhar,
(...)
O título do livro de estréia em poesia de Tatiana Pequeno vem no singular como se replicasse tão somente as urtigas. E, no entanto, replica e cita toda uma constituição familiar: “teu corpo, pai/ exumado na data dos meus anos” (p. 32); “enquanto meu pai, pedra de toque,/ toma sol sem aura no seu corpo de lítio” (p. 53); “quando o pai subiu ao monte para de lá cair/ magma e monstro” (p. 59); “reconheci no aspecto homogêneo da arnica/ a benfeitoria dos apaches, meus irmãos.” (p. 34); “Dois dos meus filhos estão/ suspensos através de/ um buquê de escorpiões” (p. 38); “usar o véu de nossa/ senhora das dores e saber como foi para ela/ ter vindo de tão longe para viver um poeta morrendo/ nas mãos furadas de cerzir a família” (p. 49). Há pelo menos três aparições do pai e são presenças órfãs, ausentes enquanto “(as mães aqui estão de passagem)” (p. 59). Enquanto imagino um “corpo de lítio”, vem-me à mente o “Lithium” do Nirvana. É uma genealogia poética de renda cravejada de peças preciosas e de balas, ou melhor, “com cravas nas linhas/ e sangue de bala escorrendo no bordado” (p. 49). A estirpe familiar forma um ciclo completo de vida e morte que vai dos “folículos na base” (p. 49) a “a morte era de novo arrumar os armários” (p. 63); da “ogiva do meu filho” (p. 78) a “os meus avós rezando e sem fé” (p. 49). E é também uma linhagem de réplicas que vai progressivamente de Maria Gabriela Llansol a Ian Curtis, Al Berto a Chan Marshall. E Orides Fontela. As referências literárias, musicais, pessoais são aqui cerzidas por Tatiana.
Há neste ciclo de vida e morte um elemento elementar, a água, que também adquire um viés no negativo, quer dizer, a água não é límpida, condição para transporte, mas torna uma força destrutiva. “Allegro diabolico” é título do poema e referência a um allegro de Béla Bartók, é dedicado “para os amigos com muitas coisas em água”, coisas astrológicas, psicológicas, afetivas e afetadas. O poema cresce segundo a ética do fundo mar e seus peixes, ostras, polvos e arraias; é um mundo subaquático com “neurologia aquática”, “sebes afogadas” e “metrô hidroviário”, um mundo a postos de ser engolido por uma onda e vivermos todos numa nova era, numa “comunidade tão sadia”, segundo o ritmo e o movimento das águas. Mas é que o poema fala de uma clínica e de uma “moça ansiolítica” a “dançar/ ao som da divisão da alegria”, a dançar o allegro e pode ser que toda a comunidade sadia possa ser “vista através do aquário de prata”. Mas, como disse, a água torna uma força destrutiva: “a água destruiria a Casa” e vivemos mesmo todos numa nova era movida por águas moventes de “uma experiência contínua de mar/ e merda na cachoeira de lama” (p. 50-51).
Gosto de “lullaby 6000” (também título de uma faixa de The Czars). Há uma imagem cíclica, não só genealógica ou da relação entre vida e morte, que são relações inerentes, como o “feixe do teleférico”, um transporte que permite a travessia, a mudança da paisagem. Entretanto, conforme a imagem do teleférico, penso no transporte circular que Bruno S. toma no final de Stroszek (Werner Herzog, 1977), filme a que Ian Curtis assistiu e em seguida suicidou-se. Neste filme, como em Também os anões começaram pequenos (Herzog, 1970) há uma imagem emblemática que é a de um carro posto em movimento, sem motorista, a desenhar um círculo. Stroszek entra num teleférico e contorna uma imagem regressiva de andar à volta de si mesmo, num eterno e perverso retorno. O poema “lullaby 6000” provoca a intenção de ser um texto de violência, “Não é verdade que o que me dás/ seja suave”, de tensão sexual que passa pelo “corpo”, pela “extensão”, pelo “falo”, pelo “trabalho de/ escavação”. E, logo a seguir, uma pergunta, quase ao molde do poema de Rimbaud, quase uma revisitação de “As réplicas de Nina”: “Lançarias comigo o feixe do teleférico?”. Eu diria que esta é uma pergunta litoral, quer dizer, é um chamado, um convite para entrar na roda e é também um pedido vigoroso para formar um círculo de vício. É esta voz perversa que espera “que estejas preparando o retorno para ti” (p. 72). E pode ser a mesma voz de um outro poema, como “engano”: “Dormias/ e nos intervalos/ mal sabias/ o meu nome” (p. 79) que parece mesclar a presença do amante indiferente e da mulher capaz de fazer de tudo para “simplesmente” “te fazer/ ficar por mais horas até que o pavor/ me dissipasse a água e enfim fôssemos/ iguais na condição da chuva e o teu/ marco no meu tronco fosse algo/ que nunca mais pudesses levar ou tomar/ de volta.” (p. 70). Este poema de tensão sexual traça uma tensão poética. Por isso, Litoral. E aqui peço licença para citar “Os sentidos do acidental” de Jorge Fernandes da Silveira, que confessa no prefácio a Réplica das urtigas gostar tanto deste Poema: “Gosto sobretudo deste modo de estar à beira do corpo do outro como se estivesse (sic) num litoral, lugar há muito confortável para o literário saber-se entre o literal e o metafórico” (p. 19-20). E confesso que gosto desta imagem limite, desta imagem litoral do “olímpico gesto de tatear as tuas/ costas de navio ao erro do exílio” (p. 70) neste livro em que, tensamente, “morte e vida/ irmana” .
Evelyn Blaut Fernandes
Rio, 18 de novembro de 2010.
JORGE, Luiza Neto. Poesia. Poesia. Organização e prefácio de Fernando Cabral Martins. 2. ed. Lisboa: Assírio e Alvim, 2001, p. 234.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
love´s house

no quarto está a luminária inútil
para os nossos rostos nesse cinzel
abafado aonde se escondem as moedas
colhem entre si o plástico e a vaga
impressão das cenas de amor sobre a
espuma protegida de cinza e porque
estamos sempre à força do segredo
sem número, à esquerda dos zeros
como se a lava inteira coubesse
no fundo de um copo e o ritual das
taças quebrasse todo o dia aqui
por onde calo e acendo a cidade
pelo túnel, espesso monte de pausas
em que abro o seu mapa para rezar
o desvio sinuoso dos encontros.
só estive nos cômodos mais baratos
onde o preço da respiração cederia
ao suor que mancha ou marca, tarde,
a luz das madrugadas no quarto onde
somente deito uma floresta e espero.
terça-feira, 30 de novembro de 2010

A ler teu leal conselho compreendi que estar só é ter a si e somente estar consigo, presente, no lugar que a claridade lhe reserva. É a saudade como anda o bicho caranguejo, noturno em sua casa de betume, e é solidão de outro que me torna ausente de mim. Mas uma se torna outra, talvez assim:
Amou o sol que cobria
com minha sombra seu passado
Agora que já não existe,
é minha própria solidão.
Aristóteles Angheben Predebon.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
um fármaco
IN: ARENDT, Hannah. Epílogo a A promessa da política. Rio de Janeiro: Difel, 2008. pp.266-269.
O moderno crescimento da ausência-de-mundo, a destruição de tudo que há entre nós, pode ser também descrito como a expansão do deserto. O fato de vivermos e nos movermos num mundo–deserto foi primeiramente percebido por Nietzsche, também o primeiro a se equivocar em seu diagnóstico. Como quase todos que vieram depois dele, Nietzsche acreditava que o deserto está em nós, assim se revelando não apenas um dos primeiros habitantes conscientes do deserto, mas também, por essa mesma razão, uma vítima de sua mais terrível ilusão. A moderna psicologia é a psicologia do deserto: quando percebemos a faculdade de julgar – sofrer e condenar – começamos a achar que há algo errado conosco por não conseguirmos viver sob as condições da vida no deserto. Na pretensão de nos “ ajudar”, a psicologia nos ajuda a nos “adaptarmos” a essas condições, tirando a nossa única esperança, a saber: que nós, que não somos do deserto, embora vivamos nele, podemos transformá-lo num mundo humano. A psicologia vira tudo de cabeça para baixo: precisamente porque sofremos nas condições do deserto é que ainda somos humanos e ainda estamos intactos; o perigo está em nos tornarmos verdadeiros habitantes do deserto e nele passarmos a nos sentir em casa.
O maior perigo é que no deserto há tempestades de areia e que o deserto não é sempre plácido como um cemitério, onde tudo, afinal, continua sendo possível, mas pode criar um movimento próprio. Essas tempestades são movimentos totalitários cuja principal característica é serem extremamente bem ajustados às condições do deserto. Na verdade, elas não contam com nada mais e parecem, conseqüentemente, a mais adequada forma política de vida no deserto. Tanto a psicologia, o exercício de adaptação da vida humana ao deserto, quanto os movimentos totalitários, as tempestades de areia em que falsas ou pseudo-ações irrompem subitamente da quietude, colocam em risco iminente as duas faculdades humanas que nos permitem transformar pacientemente o deserto, e não a nós mesmos: as faculdades conjugadas da paixão e da ação. É verdade que nas mãos dos movimentos totalitários ou das adaptações da psicologia moderna nós sofremos menos: perdemos a faculdade de sofrer e com ela a virtude da resistência. Só quem é capaz de padecer a paixão de viver sob as condições do deserto pode reunir em si mesmo a coragem que está na base da ação, a coragem de se tornar um ser ativo.
As tempestades de areia ameaçam, além do mais, até mesmo os oásis do deserto sem os quais nenhum de nós poderia resistir, ao passo que a psicologia apenas procura nos tornar tão habituados à vida do deserto, que já não mais sentimos necessidade de oásis. Os oásis são as esferas da vida que existem independentemente, ao menos em larga medida, das condições políticas. O que deu errado foi a política, a nossa existência plural, não o que podemos fazer e criar em nossa experiência no singular: no isolamento do artista, na solidão no filósofo, na relação intrinsecamente sem-mundo entre seres humanos tal como existe no amor e às vezes na amizade – quando um coração se abre diretamente para o outro, como na amizade, ou quando o interstício, o mundo, se incendeia como no amor. Sem a incolumidade desses oásis não conseguiríamos respirar, coisa que os cientistas políticos deveriam saber. Se aqueles que têm que passar suas vidas no deserto, tentando fazer isso e aquilo preocupados com as condições do próprio deserto, não souberem usar os oásis tornar-se-ão habitantes do deserto mesmo sem a ajuda da psicologia. Em outras palavras: os oásis, que não são lugares de “relaxamento”, mas fontes vitais que nos permitem viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele, secarão.
O perigo oposto é muito mais comum. Seu nome usual é escapismo: escapar do mundo do deserto, da política para... o que quer que seja, é uma forma menos perigosa e mais sutil de arruinar os oásis do que as tempestades de areia que começam exteriormente por assim dizer a sua existência. No afã de escapar, levamos as areias do deserto para os oásis assim como Kierkegaard, no afã de escapar da dúvida levou a própria dúvida para a religião ao dar o salto para a fé. A falta de resistência, a incapacidade de reconhecer e padecer a dúvida como uma das condições fundamentais da vida moderna, introduz a dúvida na única esfera onde ela jamais deveria entrar: a esfera religiosa, estritamente falando, a esfera da fé. Este é apenas um exemplo que mostra o que pode nos suceder no afã de escapar do deserto. Pelo fato de arruinarmos os oásis vitais quando vamos a eles com o propósito de escapar deles, às vezes é como se tudo conspirasse para generalizar as condições do deserto.
Também isto é uma ilusão. Em última análise, o mundo humano é sempre o produto do amor mundi do homem um artifício humano cuja potencial imortalidade está sempre sujeita a mortalidade daqueles que o constroem e a natalidade daqueles que vêm viver nele. É uma eterna verdade o que disse Hamlet: “O Mundo está fora dos eixos; Ó que grande Maldição/ Eu ter nascido para trazê-lo à razão!” Neste sentido, na sua necessidade de iniciantes para que ele possa começar de novo, o mundo é sempre um deserto. Mas da condição de não-mundo que veio à luz na era moderna – que não deve ser confundida com a condição cristã de outro-mundo - proveio a pergunta de Leibniz, Schelling e Heidegger: Por que existe alguma coisa em vez de nada? E das condições específicas de nosso mundo contemporâneo, que nos ameaça não apenas com o nada, mas também com o ninguém, talvez surja a pergunta: Por que existe alguém em vez de ninguém? Estas perguntas podem parecer niilistas, mas não são. Ao contrário, são perguntas anti-niilistas feitas numa situação objetiva de niilismo em que o nada e o ninguém ameaçam destruir o mundo.
Este texto é a conclusão de um curso intitulado “História da Teoria Política” , que Arendt ministrou na Universidade de Berkeley, na Califórnia, na Primavera de 1955.
O moderno crescimento da ausência-de-mundo, a destruição de tudo que há entre nós, pode ser também descrito como a expansão do deserto. O fato de vivermos e nos movermos num mundo–deserto foi primeiramente percebido por Nietzsche, também o primeiro a se equivocar em seu diagnóstico. Como quase todos que vieram depois dele, Nietzsche acreditava que o deserto está em nós, assim se revelando não apenas um dos primeiros habitantes conscientes do deserto, mas também, por essa mesma razão, uma vítima de sua mais terrível ilusão. A moderna psicologia é a psicologia do deserto: quando percebemos a faculdade de julgar – sofrer e condenar – começamos a achar que há algo errado conosco por não conseguirmos viver sob as condições da vida no deserto. Na pretensão de nos “ ajudar”, a psicologia nos ajuda a nos “adaptarmos” a essas condições, tirando a nossa única esperança, a saber: que nós, que não somos do deserto, embora vivamos nele, podemos transformá-lo num mundo humano. A psicologia vira tudo de cabeça para baixo: precisamente porque sofremos nas condições do deserto é que ainda somos humanos e ainda estamos intactos; o perigo está em nos tornarmos verdadeiros habitantes do deserto e nele passarmos a nos sentir em casa.
O maior perigo é que no deserto há tempestades de areia e que o deserto não é sempre plácido como um cemitério, onde tudo, afinal, continua sendo possível, mas pode criar um movimento próprio. Essas tempestades são movimentos totalitários cuja principal característica é serem extremamente bem ajustados às condições do deserto. Na verdade, elas não contam com nada mais e parecem, conseqüentemente, a mais adequada forma política de vida no deserto. Tanto a psicologia, o exercício de adaptação da vida humana ao deserto, quanto os movimentos totalitários, as tempestades de areia em que falsas ou pseudo-ações irrompem subitamente da quietude, colocam em risco iminente as duas faculdades humanas que nos permitem transformar pacientemente o deserto, e não a nós mesmos: as faculdades conjugadas da paixão e da ação. É verdade que nas mãos dos movimentos totalitários ou das adaptações da psicologia moderna nós sofremos menos: perdemos a faculdade de sofrer e com ela a virtude da resistência. Só quem é capaz de padecer a paixão de viver sob as condições do deserto pode reunir em si mesmo a coragem que está na base da ação, a coragem de se tornar um ser ativo.
As tempestades de areia ameaçam, além do mais, até mesmo os oásis do deserto sem os quais nenhum de nós poderia resistir, ao passo que a psicologia apenas procura nos tornar tão habituados à vida do deserto, que já não mais sentimos necessidade de oásis. Os oásis são as esferas da vida que existem independentemente, ao menos em larga medida, das condições políticas. O que deu errado foi a política, a nossa existência plural, não o que podemos fazer e criar em nossa experiência no singular: no isolamento do artista, na solidão no filósofo, na relação intrinsecamente sem-mundo entre seres humanos tal como existe no amor e às vezes na amizade – quando um coração se abre diretamente para o outro, como na amizade, ou quando o interstício, o mundo, se incendeia como no amor. Sem a incolumidade desses oásis não conseguiríamos respirar, coisa que os cientistas políticos deveriam saber. Se aqueles que têm que passar suas vidas no deserto, tentando fazer isso e aquilo preocupados com as condições do próprio deserto, não souberem usar os oásis tornar-se-ão habitantes do deserto mesmo sem a ajuda da psicologia. Em outras palavras: os oásis, que não são lugares de “relaxamento”, mas fontes vitais que nos permitem viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele, secarão.
O perigo oposto é muito mais comum. Seu nome usual é escapismo: escapar do mundo do deserto, da política para... o que quer que seja, é uma forma menos perigosa e mais sutil de arruinar os oásis do que as tempestades de areia que começam exteriormente por assim dizer a sua existência. No afã de escapar, levamos as areias do deserto para os oásis assim como Kierkegaard, no afã de escapar da dúvida levou a própria dúvida para a religião ao dar o salto para a fé. A falta de resistência, a incapacidade de reconhecer e padecer a dúvida como uma das condições fundamentais da vida moderna, introduz a dúvida na única esfera onde ela jamais deveria entrar: a esfera religiosa, estritamente falando, a esfera da fé. Este é apenas um exemplo que mostra o que pode nos suceder no afã de escapar do deserto. Pelo fato de arruinarmos os oásis vitais quando vamos a eles com o propósito de escapar deles, às vezes é como se tudo conspirasse para generalizar as condições do deserto.
Também isto é uma ilusão. Em última análise, o mundo humano é sempre o produto do amor mundi do homem um artifício humano cuja potencial imortalidade está sempre sujeita a mortalidade daqueles que o constroem e a natalidade daqueles que vêm viver nele. É uma eterna verdade o que disse Hamlet: “O Mundo está fora dos eixos; Ó que grande Maldição/ Eu ter nascido para trazê-lo à razão!” Neste sentido, na sua necessidade de iniciantes para que ele possa começar de novo, o mundo é sempre um deserto. Mas da condição de não-mundo que veio à luz na era moderna – que não deve ser confundida com a condição cristã de outro-mundo - proveio a pergunta de Leibniz, Schelling e Heidegger: Por que existe alguma coisa em vez de nada? E das condições específicas de nosso mundo contemporâneo, que nos ameaça não apenas com o nada, mas também com o ninguém, talvez surja a pergunta: Por que existe alguém em vez de ninguém? Estas perguntas podem parecer niilistas, mas não são. Ao contrário, são perguntas anti-niilistas feitas numa situação objetiva de niilismo em que o nada e o ninguém ameaçam destruir o mundo.
Este texto é a conclusão de um curso intitulado “História da Teoria Política” , que Arendt ministrou na Universidade de Berkeley, na Califórnia, na Primavera de 1955.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Quisera dar nome, muitos, a isso de mim
Chagoso, triste, informe. Uns resíduos da tarde
Algumas aves, e asas buscando tua cara de fuligem.
De áspide.
Quisera dar o nome de Roxura, porque a ânsia
Tem parecimento com esse desmesurado de mim
Que te procura. Mas também não é isso
Este meu neblinar contínuo que te busca.
Ando em grandes vaguezas, açoitando os ares
Relinchando sombras, carreando o nada.
Os que me vêem me gritam: como tem passado
A aldeã de sua alteza? E há chacotas e risos.
Mas vem vindo de ti um entremuro de sons e de ciclos
Um labiar de sabores, um sem nome de passos
como se, águas pequenas desaguassem
Num pomar de abios. Como se eu mesma
Flutuasse, cativa, ofélica, sobre a tua Grande Face.
Hilda Hilst. Do Desejo.
Chagoso, triste, informe. Uns resíduos da tarde
Algumas aves, e asas buscando tua cara de fuligem.
De áspide.
Quisera dar o nome de Roxura, porque a ânsia
Tem parecimento com esse desmesurado de mim
Que te procura. Mas também não é isso
Este meu neblinar contínuo que te busca.
Ando em grandes vaguezas, açoitando os ares
Relinchando sombras, carreando o nada.
Os que me vêem me gritam: como tem passado
A aldeã de sua alteza? E há chacotas e risos.
Mas vem vindo de ti um entremuro de sons e de ciclos
Um labiar de sabores, um sem nome de passos
como se, águas pequenas desaguassem
Num pomar de abios. Como se eu mesma
Flutuasse, cativa, ofélica, sobre a tua Grande Face.
Hilda Hilst. Do Desejo.
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